Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 11 de agosto de 2011
SAÚDE

 

O que há entre nós além de uma grande distância, uma exclusiva solidão, uma carência enorme de toques e vivências e respirações? O que há: não o que houve e se guarda em alguma gaveta ou disco rígido, nem o que haverá e que chamamos de oportunidade ou esperança? O que resta ou que sobra entre nós, que consegue se conter frente ao futuro e se expandir sobre o passado, o  que é que nos mede e desmesura, desespera e atura, o  que é miséria e fartura, tristeza e alegria, angústia e felicidade? Como se chama essa gama de sensações e práticas e aspirações e gestos contidos ou explosivos, fluidos que se tornam chamas, ruídos que supõem gritos?

Eu digo: o que há entre nós é puro êxtase, estado de suspensão, olho d’água que brota independente da sede, dois afluentes em duas margens mas que sabem que alimentam o mesmo rio. É a sapiência de se tocar sozinho sentindo o roçar do outro, quase uma sombra, quase um espírito. É extrair do vento um perfume de uns cabelos, de um suor, é cismar um som de voz ou de um murmúrio quando é somente um desenho de um instrumento no tom de uma música.  É desentranhar de um movimento um gesto que parece meu, um passo que parece seu, um jeito de sorrir ou fechar os olhos que seria eu, um modo de agitar as mãos ou ajeitar os cabelos que é todo você.

O que há entre nós é grandioso e mínimo, nada nas mãos mas tudo na alma, uma riqueza que não se pode gastar, uma lembrança que não se pode apagar, uma constelação de luzes que nos une pelas rotações e translações de um universo que não vai parar. O que há é de um mistério tão denso como um talismã no meu peito, um amuleto sempre no seu pulso; um segredo tão espesso como o brilho de sua íris nos meus espelhos, o risco da minha unha nas suas fronhas; um império sem fronteiras nítidas mas consciente de suas pacíficas dimensões.

O que há entre nós é resposta, voz que canta e ora, vontade e perseverança, crença e abnegação, um eco de duas vidas, um metro de duas medidas, delta que se entrega ao oceano, água que se junta num açude, coisa que às vezes chamamos amor, outras tantas de acaso.

O que há entre nós é esplêndida virtude. 

 

marco/11.08.2011.

Segunda, 01 de agosto de 2011
FLUIDO E FLUÍDO

 

 

Penso em você e são imagens com cores felizes: marinhos plânctons, tons de rosa nas novas folhas entre outras verdes da velha mangueira, flocos de arco íris, respingos límpidos de cachoeiras, absintos, artemísias, vinho tinto, flor de açafrão, olho marrom, matizes de amor-perfeito, reflexos dos cabelos em fios através do espelho, sol a pino e luar pleno, uma violeta que um figo maduro está envolvendo, um branco dentro de um jambo vermelho.

Penso em você e são visagens com cheiros indizíveis: ardido salitre, caudaloso sotaque de manga madura, suaves damas noturnas, calor de azeviche, castanhas assando, pinhão, café respirando a fervura, leite espumando em bolhas, vertigem de alfazemas, ardor de carne crua, jasmim, éter, raspa de canela, sela nova, pedra úmida na mata, pele de marta, casta de uva, azeite doce, dendê vermelho, peixe com coentro, manjericão, suor de quem se ama, translúcido alecrim nos linhos da cama, carmim na boca, lágrima de alegria com seu sal quente, suco de cana do engenho, folha de hortelã, pelo da pele do pêssego perspicando e rescendendo a delírio e desejo.

Penso em você e quase não me contenho: vôo supersônico e me arrasto por chãos de sótãos e porões, alço para o espaço e mergulho para os mais profundos sub mundos oceânicos, mando mensagens celulares, alfarrábios em lombo de mulas, emails sem anexos, brochuras de poemas, bíblias de textos, enciclopédias de onomatopéias, nuvens de íntimos suspiros, contêineres de murros nas paredes, pôsteres de beijos, doses de raros venenos, fórmulas de claros florais, cito mínimos de mim, máximos dos dias de fogo e temporais, crio um você eterno, terno, velho companheiro, novo parceiro, cotidiano estigma, permanente guia.

Eu te mio e me enredo em suas pernas como um gato que vira serpente, eu te lato e te vigio como um cachorro que abana o rabo e mostra os dentes, eu te rezo e te abençôo feito como o preto no branco, feito um mestiço de alma fria e clara num mangue exangue de um coração quente.

Sou o seu peso e sou o teu esguio, o nascente e o morto por um fio, o patente e o desconhecido, o intenso que parece imenso, o fugaz que foge como gás, sou seu tenso e conversa de rede, sou seu teso e doador de prendas, sou seu leve, seu breve, o seu fluido e o seu fluído, tanto escapo quanto incendeio, a lembrança fatal e o futuro imprevisto, entre arames farpados e rendas, sei que vou te rever, nós dois sábios dementes, no portal do infinito.

Penso em você e tudo é cor e odor e tato e visão e som e sensação, em muitas dimensões e muitos outros ciclos.

Penso em você e tudo me é tão bonito. 

 

marco/01.08.2011.

Páginas
<< Início  < Anterior 1 2