Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Segunda, 27 de junho de 2011
ENSAIO

 

Meu amor por você se sente planta nova que cumpre seu afã de crescer mas também busca encosto e amizade e cumplicidade com quem brota ao lado. Daí o afeto se faz mais palpável, roçam peles e escamas e cílios de nossas espécies diferentes, tão enraizadas de outras sementes mas que se sentiram próximas e se descobriram nós que dão em laços e se desmediram e viraram ramas, tramas e embaraços, tessituras surpreendentes, canções inéditas, sinfonias inesperadas.

É que o amor tem muitas naturezas mas a cada vez que nos renasce vem com o toque de uma nova clave, uma outra expressão de arte e carne, principia uma estação no ano que ainda não tem nome, nos anuncia juventude e madureza, nos deixa eufóricos ou absortos, inaugura uma desconhecida estação de transbordo, planta favas contadas e conta as favas plantadas, dizendo que ainda há futuro, que não se sabe de meça que valha a promessa cumprida, a bela palavra ditada.

Meu amor por você se contém e se derrama feito açude calmo, como alegre lágrima, terreno descampado, floresta sem desmate. Se guarda e se oferece como a terra que aquece toda semente farta, chuva que rega e não destrói, sol que carrega de luz a manhã e entrega a quentura e suas sombras vitais para todos nós.

Meu amor por você se conduz por invisíveis fios que às vezes são rios de palavras, outras mares de silêncios. Parece coisa de milênios, acontece como um súbito momento, antes do texto, quando ainda eu não te disse nada. 

 

marco/27.06.2011.

Sexta, 17 de junho de 2011
RECICLO


 

É muito custo, é muito caro reciclar o amor? É um alto preço, perto do desespero, ou pode ser que seja um certo endereço para a humanidade de cada um de nós? Virá a ser como um açougueiro a separar as partes vãs das carnes nobres ou será sempre a penúria de jogar fora o que valeu e ainda vibra, deitar por chão, lançar aos ares, todo querer junto a toda lamúria?

Será viés periculoso recolher as favas, que não foram contadas, e de novo plantar a espécie que guarda um tônus de ser, será que ao invés do desperdício podemos dar outro caminho ao amor, transformar seus bônus em algo nutritivo, mesmo compreendendo que a morte é um custo de estar vivo.

Minha cara, meu caro, jamais será a mesma do que quando se deu àquele amor passado. Minhas mãos e unhas, penugens e juntas, retinas e alcunhas nunca mais verão o mesmo sol, invernarão as mesmas chuvas. No entanto terei sempre o amor comigo, por instantes, por instinto, por que nem sei mesmo o porquê, se é só caso do acaso ou destemido destino.

Me é mui caro o amor e custo a acreditar em qualquer bruxa ou maldição que me faça desistir do perigo raro que é querer bem e querer, sem querer, receber em mim a paixão: condição de sobreviver a todo fim e viver em paz. Refazer as linhas retas por caminhos tortos é nossa senha e destino, saber que o que restou não é sobra mas simplesmente o que não coube e está a nosso dispor por todo sempre, basta a mão leve recolher essas limalhas do aço do amor, basta a mão agreste reunir as centelhas de luzes do amor. Mostra suas digitais para cada uma das ferozes ou castas faces do amor, que ele te reconhece. E amanhece contigo em mais um dia de futuro para a sua espécie. 

 

marco/16.06.2011.

Quarta, 15 de junho de 2011
TREJEITOS DE AMAR


 

Há várias formas de amar e de fazer o amor valer, e dele e ele não se afastar. Se eu te busco muito ao telefone, não se engane, é o meu jeito de estar junto e te falar no ouvido. Se eu te cuido e insisto e procuro, se te caço e apuro, saiba que essa é a minha forma de me apaixonar e seguir acompanhando o amor, este sentimento que é cego mas que induz seu objetivo, esta coisa que nos cega mas nos torna visionários e renitentes, viciosos, às vezes irredutíveis.

Há, também, formas párias de amar. Coisa de jogar o amor fora feito carta descartada de um baralho velho, como se em todo mero besouro não houvesse um parentesco com um real escaravelho, como se tudo o que nos surge novo não fosse a releitura do passado, de um modo singelo. Mas saiba: se me precisar, estarei aí, na hora, em pronto, estarei aí ao seu encontro. Se me agendar, sei que será uma espera segundo a segundo, exasperada para minha nova entrega. Se me esquecer, ainda assim, de vez em quando, serei um traço em sua travessia, vou estar presente em suas travessuras, e mesmo ausente vigorar, um marco em suas doenças e todas as suas curas.

Há múltiplas feições do amor, mil faces ele assume, disfarça, nos faz assentir ou renegar, nos domando ou liberando, predestinado ou insano. Mas quem manda em nós é a teimosia, é o orgulho, é a indecisão de ter um mar à frente e não saber se o melhor é olhar ou se banhar. O que vigora em nós é a valentia de singrar, a coragem de sangrar, a potência de chorar de alegria ou sobre o leite derramado. O amor, como for, é feito para ser amado. 

 

marco/14.06.2011.

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