Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Terça, 5 de outubro de 2010
EXPECTORANDO

 

 

Muita vez o amor parece um cós sujo, um mijo no muro, um preservativo reaproveitado, um absorvente do mês passado. Sem sangue nem dor, pudor ou essência, sem rancor nem decência ou sentido.

Um amor que nem se convence que mesmo é amor, posto ao lixo nas fezes, para os ratos, junto àquelas espécies de vermes hospitalares. Esse amor é, em tese, trato de baratas, formigas que tudo lambem de limpo, de limo, de sujo, de todo cujo também. Então amém. Então amem os que puderem. E os que quiserem mais do que o mais acima do real do mal e do bem. E do mau e do bom.

Muito fez o amor em mim, e também já me vez ver apenas nós duros de suores não pela vida mas sim pelas mortes que  ele praticou. Me faz ter apenas nódulos e estertores por todo meu corpo, por todos os estorvos que penso em exemplarmente exorcizar.  Muito me fez gozar, o amor, tanto me fez que até hoje me faz festejar. E nunca me esquecer de seus claros, agudos e vampiros dentes, de suas tentadoras curvas molhadas, praias e enseadas quentes, cumes e volumes incandescentes.

Muito o amor esteve em mim. E me usou, me borrou, me pintou, me folheou de ouro, e latejou no couro e tantas vezes também me deixou aos prantos, me prestou à míngua, me entregou aos pântanos a ver relâmpagos e fogofátuos. E tanto me deu e pagou, cobrou e recebeu, fiado e antecipado, com multas e moras, com tantas urgências e muitas demoras, reteve e expulsou, reviu, recusou, ostentou e usou de desprezo, reuniu, revidou, alisou e usou de aspereza, muito o amor me rendeu, se rendeu, aprendeu declarações de amor e de guerra, venceu e capitulou.

Por isso o amor é meu íntimo e estranho, louro e castanho, negro e albino, velho amigo e novo inimigo a cada instante. O amor me é a paloma da paz e o ovo da serpente, olho no olho, dente por dente, a fogo e ferro, engatinhando ou a galope, especiaria e diamante, muco de câncer, coração de leão, peixe no aquário.

Vez a vez, a cada vez, o amor reafirma como um ditador, sobre mim, sua promessa desonesta, sua sincera natureza de ser único e vário. 

 

marco/26.09.2010.

Segunda, 4 de outubro de 2010
ESTRAGO

 

Eu sou o amargo. O rasgo da unha no claro do olho que tudo tornou opaco. E você não mais prova o doce da amora, nem vê o arrepio do vento na pele do lago.

Eu sou uma espécie inconseqüente de mago, que não teme a lei mas mede as palavras para não ser deixado de lado. E você não entende porque eu existo, porque sou este acidente com vaga no tempo e no espaço.

 

Eu sou o novato e o antigo

O pé e o passo

O crime e o castigo

O nó e o laço

Às vezes planície

Depois precipício

Mestiço mulato

Virtude e vício

Saúde e colapso

 

Eu sou o disperso e o maço

Rival e amigo

Atento e relapso

Consolo e instigo

Às vezes velhice

Depois reinício

Nó górdio e lasso

Calo contrito

E desabafo.

 

Eu sou o lastro. O que traça os destinos e o que pesa nos porões para que os barcos singrem sem naufragar. E você ainda quer prova de vida, sem ver os chãos dos caminhos de tanto que tenta horizontes, sem notar que no azedo do tamarindo é onde está o seu doce. 

 

marco/03.10.2010.

Segunda, 4 de outubro de 2010
MUXOXO

 

Por lógica e obviedade, todo deus é destrutivo. Por ser dono de toda criação, nada mais lhe resta que retomar o começo e iniciar a desconstrução. Creio que eu, se um deus fosse, também não resistiria ao tédio e destruiria o próximo como a mim mesmo.

Por código e ansiedade, todo amor é desunido. Por ser absurdo ao ponto de se achar a cada vez único e incomparável, torna-se cínico e incomensurávelmente cego e surdo, igualado à justiça dos homens, insensível para o que não seja o seu próprio umbigo. Ou o gerar e o gerir de seu íntimo: seja um orgasmo ou um filho.

Sem lógicas ou códigos, o amor, o diabo e deus são coisas inúteis. Porque todos nós, quase sempre, suspeitamos que nenhum deles existe. E, pelo menos muitas vezes, nós mesmos nos achamos (e nos perdoamos) não mais que sofismas. 

 

marco/21.09.2010.

Páginas
<< Início  < Anterior 4 5 6 7 Próxima >  Última >>