Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sexta, 15 de outubro de 2010
LUTO

 

 

É incomensurável quando uma pessoa que a gente ama morre. Difícil ou mesmo impossível expressar a dor, o lamento, o ininteligível sentimento de perda, o ardor da porrada na cara de quem tanto amou. E se tem, a partir de agora, que aprender a conviver com a ausência do que ficou: lembrança má de alguém a quem só se quis bem mas que todo bem se findou.

É muito mais que triste dar adeus a quem se ama e que se acha, que de alguma forma, de algum jeito, te amou.

É inexplicável todo fim de amor.

Mas ainda luto. 

 

marco/14.10.2010.

Sexta, 8 de outubro de 2010
GATO NÃO NADA

 

Eu sei, sempre é preciso ter paciência. Essa palavra me parece um trocadilho fonético que viria nos dizer: ciência da paz. Mas também necessário é ter avidez, voragem, insensatez. E não capar o sexo dos anjos, não deixar de querer driblar o vento, não mirar um horizonte restrito e decretar que na vida, definitivamente, nada é tão bom .

É bom dar tiros a esmo no escuro não pelo alvo mas pelo barulho, esmolar um farrapo de amor e se vestir de rei sem pompa mas com circunstância, romper dos tímpanos e descolar das retinas as sensações de um findo futuro.  É ótimo pagar e exigir o troco, doar sem propósito, receber graças de graça, conceber sonhos sabendo que são maravilhas reais e concretas que chamamos de sonhos, gerar projetos e conviver com o entulho das sobras das obras.

Ter paciência não é o dom de esperar mas comer e beber quando se tem sede e fome, e respirar sempre para sobreviver, e amar perene para superviver. E também ter vontades e não só desejos, ser altivo como um mínimo ramo de capim entre as ervas raras, ter um amor imenso em si mesmo, mesmo que não nos valha nada. Senão para quê estar vivo se não for para querer o máximo, e desprezar o máximo por um momento ínfimo de felicidade, e não fazer de cada palavra um nicho e achar que ali cabe tudo e nada. Palavras não são apesar, são contudo.

E apesar de tudo que em mim ainda e sempre insiste, paciência tem limite. Levar gato para aprender a nadar não existe. 

 

marco/08.10.2010.

Quarta, 6 de outubro de 2010
NICHO

 

 

Te digo: quase sempre é difícil distinguir e separar o que é amor, desejo ou saudade. São coisas que se entrelaçam e se descontinuam como corpos, vontades, sonhos, vozes, delírios, abraços. Principalmente quando o que a gente sente é um embrulho, um monturo renitente, um entulho de dor e ansiedade, pedregulho nos dentes, espinho no olho, sentimento desfeito de orgulho e de razão, somente necessidade, só extrema sede, voragem.

Não minto: queria te comer com os cinco membros, com os olhos, com a testa; beber com todos os açúcares e feles, mirar de todos os ângulos, tocar com todas as peles, aspirar com todos os poros, rezar com todos os mantras, chorar com todos os dramas e euforias, queria decair em tentação, ascender ao éter, sucumbir aos infernos, recair em todos os erros, recriar todas as virtudes.

Não explico: em mim o amor está fixo, o desejo segue seu labirinto, a saudade é um bicho tresloucado uivando trêmulo e cansado mas arisco.

Te digo: o que posso, o que por ora consigo e arrisco. 

 

marco/06.10.2010.

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