Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Terça, 19 de outubro de 2010
IMPROPÉRIO

 

Meu rito é acordar com umas tantas palavras e as multiplicar por outras, envolvendo-as em mitos , recordações, aspirações, ofícios de linguagem e princípios de amor.

E então, elas que me xinguem, me lambam, chutem, derrubem a mesa e o que estiver em cima, me soquem, me dêem banhos de gozos ou cervejas, e que essas palavras me doam e me doem, me cubram de poesia ou de porradas, pois sei que as palavras me ladram.

E ladronas que são, me roubam os xingamentos que eu havia de firmar, os sentimentos que já me fizeram, tantas vezes, chorar. Mas retornam, essas ladras, em novos textos e canções e, em evoluções para mim não imagináveis, me fazem de novo e obrigatoriamente acreditar nelas, essas palavras, e mais ainda e mais grave, novamente crer no amor, o que me traz um vigor sem promessa mas me faz ser sempre um ser renovável.

Muitas vezes, durante a noite, substantivos me espreitam de detrás da escuridão. Ao meio dia adjetivos me floreiam os olhos, interjeições me surpreendem entre as mastigadas de qualquer feijão com arroz, pontos e vírgulas e parágrafos me dão boa tarde. E me trazem idéias de frases sádicas e metafísicas, trocadilhos aos borbotões, golfadas de impropérios, saraivadas de sentenças falsas, ardis sem o menor sentido, sacramentos impossíveis de cumprir.

É assim: faço com o amor tudo o que as palavras me trazem. Inclusive a raiva, o desprezo, a traição, a doçura, o sonho sem céu, os pés sem chão, o estupor, a indecência, a generosidade, os desejos e insônias.

Meus mitos são dois: o amor e as palavras. Não vivo sem eles. Só que para as palavras existem os dicionários. 

 

marco/19.10.2010.

Terça, 19 de outubro de 2010
A REBIMBELA DA PARAFUSETA

 

Falar mal do amor passado é fácil. Quero ver é dizer bem do amor futuro.

Tratar mal o amor que está morto é táctil. Quero ver é dar os pêsames ao amor que auguro.

Veja só: você, meu amor, é um pequeno e lindo colibri que não decide se voa para sempre ou pára no ar eternamente. Você é um grande ornitorrinco que não sabe se é pato, por causa do bico e das patas, não sabe se é galinha ou se é vaca, por conta que mama mas também põe ovos. Vê só, você é um múltiplo que quer ser único, um barco que não ancora por receio de se perder de uma frota que já foi de si, que não te conserva e que não te segue e nem precisa de ti.

Você é a rebimbela da parafuseta, ou a rebifusela da parambeleta, tanto faz.

Você é uma espoleta que não detona, um start que estaciona, sem pódio, uma linda borboleta que só cisca a flor e depois se pica com dor e veneno, você mesma, um incrível carrossel entre o amor e o ódio.

E eu sou eu só aquele a quem o amor prometeu seguir. Mas sou somente aquela figurinha carimbada que a sorte ou a desgraça não elegeu para viger.

Você é o gatilho só útil por momentos, a fraude latente que virá a descoberto, um enxame de abelhas que ataca a quem chega perto, mas que não faz nenhum mel.

Quem entre nós é a pedra da roseta, quem era ou será quem para desentranhar, e decodificar, e transliterar e revelar enfim: o que não interessa mais: o que não tem mais poder de ser, posto que agora, é somente estória, memória do que se tornou o fim do fim.

Falar do amor retardado é fácil. Tratar do amor que morreu é só mágico. Difícil mesmo é saber aonde e quando a porca torce o rabo, e o momento exato em se deve torcer, de pequeno, o pepino. E mais ainda, abrir a palavra e saber ouvir tudo que nos ameaça o íntimo ou nos subestima o tino.

Mas a ironia nos livra do amor, nos liberta da paixão, embora nos deixe com cara de besta. O melhor é mesmo fazer um brinde aos futuros significados da rebimbela da parafuseta. 

 

marco/18.10.2010.

Sábado, 16 de outubro de 2010
ZILIONÁRIO E PAUPÉRRIMO

 

Amar não é fácil, aliás, como quase tudo na vida, até mesmo respirar. Mas amar é sorver um trago doce ou amargo de todas as tequilas e runs e cachaças de todas as mais ou as menos sangrentas ditaduras, é inspirar todos os ares dos mares caymmi mas também os césios e urânios e comer as tripas de mercúrio dos peixes das baías de camamú, da guanabara e de todos os santos.

Amar é um exercício para quem quer se tornar aleijado. Pois é fato que quanto mais se anda mais se manca, tanto mais se preza mais se atropela o que quer que seja que a gente cisme em achar que é razão. O amante sobrevive em uma obrigatória e permanente cadeira de rodas, mesmo sem ser paraplégico, muito menos tetraplégico, mas se comporta como um aneurisma latente, se transborda como um apoplético repente, sendo que se torna um ser para sempre parcial e dialético. Embora amar seja radical.

Amar não é difícil como parar de respirar por si mesmo. É muito mais. E, como quase tudo na vida, não é de graça. E não é engraçado, risonho ou hilário. Amar é sério como um câncer mal curado. Amor é palavra fácil, por isso é tanto usado o seu nome em vão, pois é para sempre um mistério, um minério a ser explorado, um fracassado sem causa, um herói sem mérito, um suspirar sem pausa, um miserável sem séquito, um depauperado perplexo, um lobotômico histérico.

Amar é despautério. 

 

marco/14.10.2010.

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