Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 28 de outubro de 2010
COMPANHIA ILIMITADA

 

 

A verdade, em verdade, não digo: não por pudor nem por íntimos ou públicos ou púbicos sentidos. A verdadeira finalidade do amor não declino, simplesmente porque não a sei, infelizmente porque não a assei nem fritei nem cozinhei, oportunamente porque não asseio o lastro do que não sujei.

Posso ser grosso e rude e dizer que já assoei todos os escarros nos pratos de quem achei que mereceu. Já também urinei e defequei muitas da minhas palavras - algumas sábias,  outras irrisórias – nos ouvidos e corpos de quem nem acho nem desacho nada, simplesmente talvez, algumas vezes quis ser príncipe e fui sapo, em outras vezes fiz ser dragão e me chamaram astro.

Sei ser fino e casto, íntegro e irrepreensível e declarar que desejei a morte e a danação de tantos, a desgraça e infelicidade de muitos, de quem eu quis, de quem não me fez feliz. Já fiz conjurações secretas em encruzilhadas e cemitérios, vodus recheados de flechas, sapos com as bocas costuradas a fio de aço e olhos cegados por ácido e rícino.

A verdade é que ela não existe. E eu não sei se muitas vezes não sou eu o meu próprio assassino. Mas sigo engulhando e vomitando os lixos de minhas estrofes. A verdade é que, como todo ser quando só e ferido, torno-me um perigo, um exagero de sentimentos e expressões, uma criatura limítrofe. 

 

marco/28.10.2010.

Quinta, 28 de outubro de 2010
RUMINANDO

 

 

Então está combinado

Não vale pra nós o passado

De ontem nem de tantos anos atrás

Não mais nostalgia

Também nem nos guia

Surpresas ou novas descobertas

A pele entregue, a carne aberta

E as palavras ditas

São apenas velhas melodias

Que já não se cantam mais

 

Então está tudo amado

E não temos mais futuro e adiante

E nada justo, é tudo fútil sentimento fugaz

Então estamos lacrados

                         nesse imenso momento confuso

Que faz de nós uns nós atados

                      nesse intenso movimento profuso

Quando e onde não sabemos ser nem terra

                           e nem água e nem fogo ou gás

 

Então está mesmo armado

Um destino sem limites de perjúrio

E a crença na presença de uma infelicidade

                                                                        atroz

Então somos escravos dessa vil ferocidade

                                                       de não ser feliz

Ator e atriz perdidos no enredo sem fim,

                                                        meio ou termo

Sem mesmo pensar em poder sermos

                                                       ternos conosco

E cada qual em si termos gozos

Além do firmamento da vida que corre

Nenhum céu infinito e nem sete palmos

                                                                   de mitos

Somente um silêncio ou um grito

Que queira dizer

Que apesar de nós mesmos

Estaremos sempre loucos

De tão vivos.

 

Então está ruminado.
 

 

marco/10.09.2010.

Terça, 26 de outubro de 2010
ODEIO VOCÊ

 

Todos os meus ódios e raivas, desejos sem conta e favas contadas, é lógico, derivam do amor. E vem e vão, muita vez em vão, fazem visita e retornam para o amor: esse deus volátil e encouraçadamente forte e frágil, essa coisa desuniforme e monstruosamente rígida em regras e desmilingüida em choros e preces sem pudor.

Não há tarde nem noite ou manhã, não há cedo ou futuro para que o custo do injusto venha desmerecer e cuspir e escarrar na fonte da sede aonde bebeu porque muito quis, na fronte do ser onde enterneceu sua dor porque assim foi feliz. Não há perto nem logo ou ali, não há longe ou passado para que o casto se faça espúrio, que o erro se torne orgulho, que o sentimento se desperdice em marés sem mais um sequer habitante daquele terno envolvimento de cardume.

Todos os meus pódios e laivos, resquícios de glórias ou nuvens de mágoas, é pródigo, naufragam no amor.

E vem e mentem, e vão de vão em vão e se surpreendem, muita vez em vão, às vezes nem fazem vista, em outras pedem guarita, mas sempre correm como parasitas para junto do amor.

Se o que te amo é verme que me habita, o que te odeio é germe que se habilita. Mas há para sempre, para os dois, alguns possíveis remédios e venenos, inseticidas. 

 

m/21.10.2010.

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