Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 13 de maio de 2010
LENDA VIVA

 

parece uma delícia estúpida o amor. delicado e tenso como teia de aranha, áspero e teso como língua de gato, ronronante e intenso como mar dentro a grande concha, arrogante e prepotente como um estupro.

parece uma agonia lícita o amor. assim como o tabaco e o álcool, droga social. às vezes até mata mas na maioria delas somente fere e desbasta a saúde, perverte as atitudes, enevoa os horizontes onde se veria claramente um límpido próximo dia.

parece brincadeira inofensiva o amor. como andar de bicicleta. mas jogue este jogo uma vez e você nunca mais vai esquecer. com toda diversão, prazer, contentamento, virá também o escárnio, o remorso, a dor. como se o gozo gerasse o arrependimento, como se a fortuna carregasse consigo o infortúnio.

parece uma praga incurável o amor. e é uma epidemia de contágio lento ou imediato, com fortaleza ou frágil, doença boa e má – mas quem é que quer se vacinar contra o amor?

parece uma lenda em que teimamos acreditar, parece destino inexorável pelo qual não adianta rezar, fazer promessas, implorar, se flagelar ou penitenciar: ele virá. mais tarde ou mais cedo, bem tarde ou muito cedo ele irá te encontrar, mesmo você que não busca, até você que se esconde, o amor vai e vem entre seus dias, faz que não, finge que sim, se engraça nos seus olhos, se escusa do seu corpo, sonsamente diz que jamais vai voltar, impiedosamente detém seus passos, esbofeteia sua cara, te beija com sumo de sangue e melaço.

parece uma alegria inveterada o amor. parece uma desgraça incalculável, uma felicidade que chega a doer, uma dor que parte para tornar a ser feliz, parece um desastre o amor. daqueles em que muitos se ferem mas só uns poucos verdadeiramente morrem, parece um milagre o amor. desses que nos deixam pasmos, ofegantes, inocentes, crédulos, revoltados, vingativos, céticos, endemoninhados.

mas nunca passivos, sempre apaixonados.

o amor é que é assim pai e mãe, irmã e irmão, tio e tia, avô e avó, prima e primo, padrasto e madrasta, enteado ou enteada, amigo ou amiga, parente carnal ou gente adotada?

ou assim é que somos nós, de nós mesmos bastardos?

 

marco/13.05.2010.

Terça, 11 de maio de 2010
DESCOMPASSO

 

desculpas pela verdade

que eu não devia

ter te revelado.

a ignorância,

às vezes, é mesmo

o melhor legado.

 

perdão pela displicência

que eu não devia,

porque ter pago?

a importância,

às vezes, é menos

que o próprio saldo.

 

clemência pela sinceridade

que eu não devia

ter tornado fardo.

as alianças,

às vezes, tem medo

de serem só laços.

 

tremendo de gelo

ou suando de fervor

foi erro o meu jeito:

te trazer do frio

te deixar calor.

 

marco/11.05.2010.

Terça, 11 de maio de 2010
CASA PRÓPRIA OU ALUGUEL?

 

É mister nos perdermos entre verdades, mentiras, meias-verdades, omissões e coisas assemelhadas. É certo que, na vida, na maioria das vezes, preferimos não encarar as verdades, e fazer uso de mentiras, requentar meias-verdades, gelar as omissões e hibernar em coisas amealhadas entre o bem e mal, entre o mau e o bom. Pois é, pra que?

Pra deixar leve as conversas, sem o pesar de palavras em escuro confessionário; pra tornar breves as discussões que levariam séculos sem se concluírem; pra firmar um método todo humano e hipócrita de criar neve onde já existe frio, ebulição onde a natureza já ferve. Quer dizer: dentro do inferno não se percebe suor, em pleno céu qualquer azul não se faz notar.

É mister nos encontrarmos atônitos quando frente à revelações, por mais simples que sejam, pela simples noção de nos parecer estarmos sendo traídos, subtraídos do normal por uma falta daquela ética que nos é peculiar quando mentimos deslavadamente, quando semi-mentimos enxaguadamente, quando omitimos secamente, quando nos atinge uma intempérie que o ser social e amável não consegue dominar.

É certo que, na vida, seguimos assim. E no amor, por mais espírito ou carne, seguimos assim também. É certo ou errado, bom ou mau, do mal ou do bem, não sei.

Só sei que explicar verdades ameaça as pessoas e mentir para elas as deixa relaxadas ou pelo menos resignadas. Ser verdadeiro é pecado. Ser sonso é status.

Meu amor próprio está com sono e vai dormir.

Amanhã alugo um outro pra mim.

 

marco./11.05.2010.

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