Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Segunda, 17 de maio de 2010
A SOLIDÃO E A SAUDADE

 

mesmo quando nem me lembro, sinto uma saudade extrema de você. me falta ar quando a sede é absurda, me basta água quando os pulmões quase explodem, me desmaia a razão  quando o sonho é um alazão, cavalgo feito um demente enquanto me ferro as patas, urro como um penitente que não tem culpa de suas chagas. e hoje eu sei que a solidão não mata. mas é uma loção que aroma as rimas com centelhas de gotas bastardas, sentimentos exilados, um sudário e suas marcas. é mais uma noção abstrata sem tato, uma poção mais dramática do que mágica, uma porção tão real que não se tem dimensão.

e quando a saudade e a solidão dão as mãos, tudo pode acontecer. inclusive choro sem lágrima, demência sem desespero, poço sem água, carne e osso sem alma. inclusive ser trágico sem ser piegas, hilário sem ser ridículo, seguir a saudade e a sina, sentir a fartura e a míngua, a solidão e a platéia, ser manco mas dono das próprias pernas.

“já não te disse que não sou senão poeta?”.

 

marco/.25.04.2010.

Domingo, 16 de maio de 2010
SENDO SENDA

 

Quando tateio, sei o que tenho entre meus dedos. Alianças e anéis não me fazem mais peso. Quero carinho, verdade, apreço e paz. Já que não sou mais rapaz, quando serpenteio por entre um corpo, sei de cor do mistério e do perigo, o que pode ser cemitério ou outra forma de abrigo. Já que sou homem feito, quando me azulejo em uma pessoa, sei a cor dos decalques e que hão muitos tons de reflexos que um deixa sobre o outro.

Quando perscruto, sei a que venho mas nunca ao que vou. A surpresa é a metade do caminho assim como a carícia é a verdade do carinho. Até o clímax? Até o êxtase? Até o cataclisma ou até a mesma rima sem ênfase? Quero paz, verdade, carinho e apreço. Já assoei e lagrimei todos os meus lenços, meus lençóis já manchei de tudo, desde gozos até águas sanitárias, já bebi e comi de epopéias e lutos e mesmo assim me resta muito a provar, a degustar, a digerir e descomer. Ainda me falta muito a provar, principalmente para mim mesmo.

Quando prospecto, sei que fatalmente acharei falhas em quaisquer sedimentos, lençóis freáticos em muitos leitos, veios preciosos em rochas milenares. Mas a jazida, o gás, o óleo, a pepita, tudo é novo quando descoberto. Vivo para, mais que descobrir: desencobrir. Mostrar o frio e logo após acobertar aquele corpo, aquela voz, aquele sentimento, aquele olhar que poderia estar perdido mas permanece com vida.

Disso vivo. Desse vivo. E espero sempre o recíproco.

Quando tateio, perscruto, prospecto, me intero, não faço mais do que a água ou o vento: me imiscuindo entre coisas e gentes, quero ser bem vindo como um tal que uma vez traz fogo para iluminar a noite escura, ou outro que chora no deserto para fazer chuva.

Bem sabendo: quando é o tempo um todo, sempre é agora mesmo. E nunca é eternidade absoluta.

Por isso o amor é nunca, sempre e quando.

E mesmo múltiplo, único.

 

marco/29.04.2010.

 

Sábado, 15 de maio de 2010
MAIS VALIA

 

Quando alguém te manda uma mensagem à 01:49h de um dia 15 de maio, creio que vem com ela algo de urgente e perverso. Urgente porque sugere que aguarda uma reação. Perverso pois você talvez estivesse dormindo e acordasse transtornado com o toque renitente do telefone.

Pois é: Eu não estava em sono ou sonho. E a possível resposta são estas palavras.

Acordado para usufruir os silêncios da madrugada, você alerta as orelhas e olhos para aquele objeto que trina um som digital, hesita em tocá-lo, em ler o que for que ele tenha a revelar. Mas a curiosidade é a má alma que matou o gato e o corpo bom que propicia todas as descobertas desde a roda de pedra até os tecnológicos íons flamejantes.

E você olha e vê, e relê, e revê quinze palavras que parece que já foram lidas umas setecentas e dezenove vezes. Você lida com isso como quem não mais se surpreende com nada na vida, pensa em umas coerentes réplicas, todas inócuas, já que o alguém remetente não precisa de nenhuma sua palavra. Somente necessitou te enviar um conselho módico e um irônico agradecimento. Você pensa: agradecido pelo vosso aconselhamento e de nada pelo meu modesto obséquio.

E logo se alisa em sua noite um certo cansaço, pelo adiantado da hora e pela surpresa frustrada. Mas resistindo ao tempo e à fadiga, acende-se em seu interno ambiente uma faísca que promete se tornar fogueira: este recado em horário esdrúxulo e com texto inusitado, é uma mensagem de amor.

Creio que chega nele, através de suas urgência e perversão, um quê de velada saudade, carinho comedido, falso desprezo, sincera gratidão.

E possivelmente este incêndio vai iluminar o restante de suas horas escuras, amanhecer sua noite mesmo antes da hora, clarear seus sentimentos: o que irá reger suas próximas palavras e ações, mediar meditações e pressentimentos, aliar os descaminhos por onde, muitas vezes, passeiam seus nervos, músculos, tendões, desejos, esperanças, alegrias e medos.

Quando alguém te mandar uma mensagem à 01:49h de um dia 15 de maio, não ignore.

 

marco/15.05.2010.

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